CNJ firma acordo com Ministério da Agricultura para ampliar controle técnico em recuperações judiciais no campo
Medida busca reduzir fraudes, aumentar segurança jurídica e dar mais
precisão às decisões envolvendo produtores rurais endividados
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) firmou um acordo de cooperação
técnica com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para
incorporar dados técnicos agrícolas aos processos de recuperação
judicial de produtores rurais. A iniciativa, formalizada no Acordo nº
013/2026, pretende qualificar a análise do Judiciário diante do aumento
expressivo de pedidos no setor.
A parceria prevê o uso da chamada Infraestrutura de Verificação
Agrícola, Monitoramento e Conformidade de Grãos (VMG), um sistema que
reúne informações como imagens de satélite, dados georreferenciados e
relatórios técnicos sobre a atividade produtiva. A ferramenta passará a
subsidiar juízes e administradores judiciais na avaliação da real
situação financeira e operacional dos produtores.
A medida ocorre em um contexto de forte judicialização no
agronegócio. Segundo dados do próprio acordo, há mais de 10 mil casos de
renegociação de dívidas no setor, sendo mais de 5 mil relacionados a
problemas climáticos. Auditorias também identificaram cerca de R$ 29,7
bilhões em operações de crédito rural com indícios de irregularidades
socioambientais.
A proposta central é reduzir a margem de decisões baseadas em
informações incompletas ou distorcidas. Com o acesso a dados técnicos
padronizados, o Judiciário poderá verificar, por exemplo, se a produção
declarada corresponde à realidade, se há viabilidade econômica na
atividade rural e se existem indícios de uso indevido do instituto da
recuperação judicial.
A advogada e administradora judicial Jéssica Farias avalia que o
acordo representa um avanço relevante para o sistema de justiça. “Esse
tipo de integração traz mais objetividade para decisões que, muitas
vezes, dependiam de informações frágeis ou incompletas. Com dados
técnicos confiáveis, o Judiciário ganha capacidade de diferenciar
situações legítimas de crise daquelas em que há tentativa de fraude”, afirma.
Segundo ela, a medida também tende a beneficiar produtores que atuam de forma regular. “A transparência protege quem realmente precisa da recuperação judicial como instrumento de reorganização financeira”, completa.
Além da análise inicial dos pedidos, o acordo prevê o acompanhamento
contínuo da atividade rural durante o processo. Relatórios mensais
deverão incluir informações específicas sobre a produção, com
possibilidade de contratação de peritos para avaliação técnica da safra.
O sistema também permitirá verificar a conformidade socioambiental
das propriedades, um ponto sensível diante da crescente exigência por
práticas sustentáveis no agronegócio.
Implementação
A execução será feita em etapas. O plano prevê a implantação de um
projeto-piloto em uma comarca, com capacitação de magistrados e
servidores, antes da expansão para todos os tribunais do país em até 120
dias.
Não haverá transferência de recursos públicos entre os órgãos. A
operação da VMG ficará a cargo de entidades privadas credenciadas, sem
custos diretos ao erário.
Para Jéssica Farias, o modelo combina teste operacional e controle de
custos. “A ideia é começar em escala reduzida para ajustar o uso da
ferramenta na prática, capacitar quem vai operar o sistema e corrigir
eventuais falhas antes de ampliar. Ao mesmo tempo, o fato de não haver
repasse de recursos públicos indica uma tentativa de tornar a
implementação mais eficiente e menos onerosa”, afirma.
Na sua visão, a medida aponta para um movimento de modernização do Judiciário diante da complexidade do agronegócio. “Hoje,
decisões nessa área exigem cada vez mais dados técnicos, monitoramento e
critérios objetivos. Esse tipo de estrutura tende a qualificar a
análise e dar mais previsibilidade ao sistema”, diz.